Quem amplifica as narrativas de 3 milhões de pessoas no Brasil?
Neste 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, compartilho sete nomes de figuras fundamentais na luta de pessoas trans

Ao matutar sobre este texto e os caminhos que eu atravessaria para criá-lo, uma pergunta me perseguia, como um verdadeiro quebra-cabeças sem peças específicas: como posso retratar a população trans sob uma ótica que não se limite aos ecos estrondosos da violência vivida pelo grupo no nosso país?
Dias vão e escrever o material, que agora você lê, parecia um desafio com um nível de complexidade acima da média, afinal existia uma certa ambição no desafio de retratar o Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, como a celebração de respeito que torço para que um dia a data se torne.
No entanto, é impossível fechar os olhos diante da triste realidade de que, segundo dados fornecidos pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apesar de estarmos ensaiando uma queda no número de assassinatos de pessoas trans, o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Para Bruna Benevides, a presidente da associação, essas mortes são como o estágio final de um processo que começa muito antes: no abandono institucional e na exclusão social1.
Nesse contexto onde a existência de cerca de 3 milhões de brasileiros – este é o contingente estimado de pessoas trans e não-binárias no nosso país, segundo dados da Antra – é frequentemente apagada pelo preconceito, viver se torna um verdadeiro ato de resistência contra um sistema que teima em oprimir indivíduos e corpos trans. Por esse motivo, eu escolhi e escolho a celebração e este é um convite para lembrarmos da luta (e, principalmente) da vida de muitas pessoas trans que estão reescrevendo a história da nossa geração.
O rosto da visibilidade na política
Aos 33 anos, Erika Hilton é figura central de um novo imaginário político que se forma no Brasil, representando uma voz na luta pelos direitos humanos e por mais justiça social. Sua caminhada, que começou no ativismo estudantil e amadureceu, mais tarde, na Câmara Municipal de São Paulo, onde ela se tornou uma das maiores lideranças negras e trans do país na Comissão de Direitos Humanos.
O trabalho de Hilton no Congresso brasileiro tem como enfoque principal a mobilização em volta de grupos vulnerabilizados, como a população LGBTQIAPN+, para que sejam criadas novas políticas públicas que combatam as desigualdades estruturais – além de falar sobre dignidade, empregabilidade e o direito à vida.
Onde a arte e a moda se encontram
A música brasileira encontrou novo fôlego na voz aveludada de Liniker. Primeira mulher trans brasileira a conquistar um Grammy Latino, a artista elevou a sua arte à um patamar ainda mais alto com o álbum intitulado “Caju” (2025). Mas o brilho da artista não se limita aos palcos: na série “Manhãs de Setembro” (disponível no Prime Vídeo), Liniker se veste de toda a sua vulnerabilidade para narrar narrativas complexas trazendo para as telas a complexidade de uma mulher trans que busca estabilidade em todas as áreas da vida.
Na mesma trilha de ruptura, Linn da Quebrada segue utilizando o espaço da performance e como ferramenta política. A passagem pelo reality Big Brother Brasil 2022 foi um verdadeiro marco na televisão aberta brasileira, onde ela não só discutiu mas trouxe aspectos didáticos para discussões acerca da linguagem e identidade de pessoas trans. Linn também é apresentadora e pensadora que questiona as estruturas de poder com muito humor e sagacidade.
Já na moda, o corpo e a vivência do modelo Sam Porto rompe o monólogo dos padrões de beleza. Primeiro homem trans a desfilar na São Paulo Fashion Week, Sam não só desfila looks super criativos nas passarelas, mas questiona as fronteiras da masculinidade. Além das passarelas, Sam usa o seu perfil nas redes sociais para compartilhar detalhes da transição com uma autenticidade que demonstra como as vidas trans têm deixado de ser invisibilizadas.
Educação, trabalho e a sensibilização
Maite Schneider, co-fundadora da Transempregos, entende que falar de cidadania é tratar sobre trabalho, sendo uma das maiores especialistas em diversidade e inclusão (D&I) no mercado de trabalho brasileiro. Com décadas de ativismo, ela atua como ponte estratégica entre talentos trans e o mercado formal, combatendo o estigma que empurra essa população para as margens profissionais. Veja abaixo um vídeo da pesquisa mais recente da organização liderada por Maite:
Na comunicação, o jornalista e escritor Caê Vasconcelos é uma das vozes mais potentes na comunicação voltada para direitos humanos. Autor do livro “Transresistência: Pessoas Trans no Mercado de Trabalho” (2021), ele dedica a carreira para compartilhar as histórias de pessoas trans de forma humanizada, fora das lentes sensacionalistas e dos estereótipos de violência que o jornalismo tradicional pode muitas vezes reproduzir.
Outro escritor trans é Jonas Maria, que também é criador de conteúdo e pesquisador. Com uma linguagem acessível e bastante didática, Jonas se tornou uma referência ao promover reflexões profundas sobre como as normas sociais moldam nossos corpos e identidades. O trabalho de Jonas vai além do entretenimento ao se tornar uma via educativa que ajuda milhares de pessoas a compreenderem a si mesmas e ao mundo que as cercam.
Texto de Alice Rodrigues, para a Agência Brasil (https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-01/brasil-ainda-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-no-mundo).











